"No Senhor está a Misericórdia e com ele Abundante Redenção" (Salmo 130, 7)



I.  Bebendo de nosso próprio poço


Um modo redentorista de entender a redenção começa com Santo Afonso. Não diferentemente de nossa própria época, a sociedade na qual Deus chamou Afonso de Ligório para proclamar a copiosa redenção apresentava enormes desafios. Ele vivia numa mudança de época, no ponto crítico de transição da sociedade medieval para o novo e audaz mundo do Iluminismo. Afonso tomou conhecimento dos pobres mais abandonados, que muitíssimas vezes eram esquecidos nas prioridades políticas, econômicas e culturais do seu tempo. Ao mesmo tempo, estava consciente de sua própria necessidade de conversão, se quisesse responder fielmente ao chamado de Deus.
Muitos de seus contemporâneos achavam-se afastados de Deus por causa das imagens inadequadas de Deus que lhes eram apresentadas e devido a um legalismo opressor na espiritualidade e na moral. Afonso combateu essas distorções do Evangelho com uma robusta prática pastoral, imbuída de um espírito clarividente de oração e contemplação. Sua pregação da redenção tocou os corações das pessoas que tinham chegado ao ponto de imaginar a Deus quando muito como remoto e indiferente, e no pior dos casos, como um tirano cruel.
Para Afonso a totalidade da vida cristã está centrada em Jesus e sua obra da redenção. Se queremos entender a intuição espiritual de nosso Fundador, então creio que o enfoque crucial não é na redenção como categoria abstrata, mas antes na pessoa do Redentor. Para Afonso, uma abordagem cristológica é indispensável, pois é o Redentor que revela o que é a redenção. O Redentor representa o verdadeiro caráter de Deus em toda a sua plenitude. Quem é Deus? O que Deus pensa dos seres humanos? Como Deus actua com os seres humanos? Afonso une sua voz a Jesus no Evangelho de João: “Pois de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que não morra quem nele crê, mas tenha a vida eterna. Pois Deus não mandou seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que por meio dele o mundo seja salvo” (Jo 3, 16-17).
O mistério da redenção não consiste em que nós nos tornemos dignos de Deus, mas antes em que, em Cristo Jesus, Deus nos faz dignos dele (Cl 1, 12-14; Ef 1, 3-14). Essa compreensão do desejo de Deus de transformar os seres humanos pelo amor é um elemento importante da visão de Afonso. A redenção torna-se a entrega livre de alguém na admiração e na gratidão pelo amor de Deus que é dado em Cristo Jesus por meio do Espírito.




A missão dos Redentoristas é levar as pessoas ao ponto crucial da vida cristã: o amor de Deus que é poderosamente revelado em Jesus Cristo. No centro da vida e do ministério da Congregação está o próprio mistério da redenção. Nós Redentoristas nascemos no coração de um ardoroso discípulo de Jesus, que ardia de zelo pela redenção de todos, com especial preferência pelos pobres, aqueles que tinham sido abandonados pelas práticas pastorais do seu tempo e pelos critérios da sua sociedade.
Por meio de Jesus o amor redentor do Pai atinge cada pessoa individualmente. Na perspectiva de Afonso, o amor de Deus não é anunciado abstratamente, mas por meio de histórias que ilustram o amor pessoal de Deus a cada pessoa e espera de cada qual uma resposta de conversão. A transformação do mundo se realiza por uma mudança pessoal do coração e pela obediência ao plano de Deus como foi revelado em Jesus. Como seres humanos, nós também temos uma necessidade básica de pertença, de sermos parte de um projeto mais amplo que nos conduza para além de nossos pequenos mundos pessoais. O amor redentor de Deus produz uma mudança em nossas relações, unindo-nos como comunidades na Igreja (Const. 12), a qual nos confia a missão de comunicar aos outros o amor que experimentamos no Redentor.



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